Historiador José Roberto de Oliveira detalha legado missioneiro em palestra na UFSM-PM
Em conversa com a Rádio Palmeira, autor aborda o povoamento pré-pampeano e guaranítico, a formação do gaúcho "pelo-duro" e a importância histórica da região na erva-mate
Publicado em 07/10/2026 às 09:40
Atualizado em 07/10/2026 às 11:29
Capa Historiador José Roberto de Oliveira detalha legado missioneiro em palestra na UFSM-PM

Foto de João Vicente Magalhães

O curso de Ciências Econômicas da UFSM-PM trouxe para compor a agenda de sua Semana Acadêmica, o historiador José Roberto de Oliveira na noite desta terça-feira (06) no Auditório do Campus em Palmeira das Missões. Durante a palestra, o autor destacou a importância do território missioneiro, ressaltando que a região abriga presença humana contínua há mais de 10 mil anos, busca por reencontrar e reconhecer a herança guarani em nosso cotidiano palmeirense e demonstrar os aspectos e estruturas econômicas das Missões jesuíticas.

Quem é José Roberto?

José Roberto de Oliveira é engenheiro de Operação Civil, mestre em Desenvolvimento, professor universitário, tendo ministrado aulas na URI e na UNIJUÍ. Além disso, também é pesquisador da CAPES, autor e coautor de livros e artigos relacionados às Missões, alguns publicados no Vatican News. Por fim, José Roberto atuou junto ao Ministério do Turismo na articulação internacional para a criação do Caminho das Missões.

A Origem

Segundo o pesquisador, o povoamento da região iniciou-se com populações pré-pampeanas do Paleolítico, seguido pelo estabelecimento dos povos Guarani e Kaingang. Com as ocupações espanholas e a atuação dos jesuítas a partir de 1626, teve início o processo de cristianização dos Guaranis. Em 1634, o gado trazido por Cristóvão de Mendoza deu origem aos pilares da cultura regional: o tipo gaucho, o tropeirismo, as estâncias e as charqueadas. Além da pecuária, os indígenas transmitiram aos jesuítas o conhecimento sobre o cultivo da erva-mate, que se consolidou como um relevante produto para o mercado internacional.

A consolidação dos Sete Povos das Missões envolveu grandes extensões de criação de gado nas coxilhas do atual território de Palmeira das Missões. José Roberto desmistificou visões históricas simplificadas ao pontuar que os Guaranis produziam roupas de fibras naturais e couro de caça em razão do clima frio da região. O avanço territorial e econômico desencadeou conflitos internacionais entre Espanha e Portugal, resultando no Tratado de Madri, na resistência de Sepé Tiaraju e na Guerra Guaranítica de 1756, que culminou na Batalha de Caiboaté. 

O que a Europa pensava sobre as Missões na época

José Roberto aponta em alguns momentos de sua palestra algumas opiniões de intelectuais da época acerca das Missões jesuíticas. Como exemplo, Voltaire aponta que o projeto jesuítico-guarani foi um triunfo da humanidade; Montesquieu afirma que o primeiro estado industrial da América foi as Missões no sul do continente.

O Legado

Com a expulsão definitiva dos jesuítas em 1768, as populações Guaranis cristianizadas continuaram na terra, formando a base étnica e social do chamado "mundo pelo-duro" gaúcho. A região ainda esteve sob domínio português a partir de 1801 e passou por um período integrando a província das Missões Orientais do Uruguai, ligada à Argentina, em 1828.

Questionado sobre a permanência dessa herança no século XXI, o pesquisador enfatizou que o legado guaranítico se faz presente no cotidiano das comunidades locais, na musicalidade, no churrasco e no festival Carijo em Palmeira das Missões. Ele defendeu que a sociedade contemporânea é descendente direta desse processo histórico, motivo pelo qual se dedica à publicação de livros e à divulgação científica para suprir lacunas do ensino formal.

José ainda afirma que, após a expulsão dos jesuítas dos territórios guaranis, alguns missionários foram para diversos lugares da Europa, sendo que, por volta de 1700, alguns desses jesuítas foram para a Prússia e para a Rússia. Lá, eles relataram aos europeus sobre os Tupambaés (terras de produção coletiva) e os Amanbaés (terras de produção para consumo próprio) e de estruturas semelhantes ao cooperativismo que foram aplicadas nas Missões. 

As Obras

Entre suas publicações detalhadas durante a entrevista estão:

  • O Pedido de Perdão ao Triunfo da Humanidade: aborda a história missioneira sob uma perspectiva de reparação aos povos originários.

  • Relatório da Guerra Guaranítica: tradução e análise comentada de documento jesuítico localizado na Europa, focado na visão dos nativos.

  • Mbororé, a Vitória: registro do conflito naval ocorrido no Rio Uruguai entre bandeirantes e combatentes guaranis e jesuítas.

  • Os Espíritos das Missões: A Energia Histórica Viva: obra lançada no contexto dos 400 Anos, que investiga a espiritualidade das ruínas e a consolidação da identidade gaúcha.

A síntese sobre Palmeira das Missões

Conforme o pesquisador, o município preservou ao longo do tempo a geografia, a marca cultural dos ervais e o modo de ser missioneiro. Assim, ao sintetizar em uma frase a relação entre Palmeira das Missões com a cultura guaranítica e a identidade indígena, José Roberto recorreu ao próprio topônimo do município:

"Palmeira é das Missões!"

E além disso, ainda acrescenta:

"Olhem-se nos espelhos [...] quem eram seus antepassados?"

Fonte: João Vicente Magalhães / Jornalismo RP

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